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John Huston e um dia de sol

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.08.08

Ontem foi O Dia John Huston no canal TCM. Soube-o por acaso, quando por lá passei à espera de um "milagre". E às vezes, sim, às vezes, o "milagre" acontece: apanhei, quase no início, The Treasure of the Sierra Madre. No final, uma entrevista com a filha, Angelica Huston e o anúncio do filme seguinte (que nunca tinha visto): The Red Badge of Courage.

John Huston, como fui espreitar a uma breve biografia, nasceu a 5 de Agosto de 1906, no Nevada. E para celebrar aqui, com um dia de atraso, o seu cinema-arte - como disse, tão poeticamente, Angelica Huston: a bitter sweet morality about it, lembrei-me de um texto que lhe dediquei, e às suas personagens, e que anda a navegar desde 97... Dei-lhe o título poético John Huston e um dia de sol. Aí vai, devidamente adaptado à navegação deste rio:

 

Primeiro, o cenário. Muita luz, branca. De sol ao meio dia. De um país da América central ou de África. As sierras ou as plantações. Não esquecer as personagens. O protagonista d' As Raízes do Céu aproxima-se de papel na mão. Dizem que o seu criador lhe deu essa capacidade rara nas pessoas, a determinação. Mas há quem diga que foi a imaginação que o salvou durante a guerra, preso num espaço exíguo. Conseguia transportar-se para essas planícies intermináveis onde manadas de elefantes se deslocam em liberdade. O determinado e imaginativo cruza-se agora com uma criatura louríssima como o sol africano e os movimentos, uma coreografia estonteante. Lamentou profundamente que não estivessem no mesmo filme. A vida é injusta, pensou. Não estamos no mesmo filme mas ainda me vai assinar a petição. Assinou, depois a mesma coreografia de bailarina. Descobriu mais tarde, e devido à sua capacidade imaginativa, tratar-se de uma das personagens d' Os Inadaptados. Não tinha nada o ar de inadaptada mas as aparências iludem mesmo os mais perspicazes.

A mania de nos obrigar a trepar esta montanha com este calor. Outro protagonista ao sol do meio dia. Nem uma bebida fresca. Que falha na organização! Eh, viste passar o das petições? Encontramo-nos a toda a hora desde que me meteram naquela aventura horrorosa em África. Pelo menos o calor aqui é seco. Andar a trepar montanhas ou a puxar por um barco a cair aos bocados num rio africano, eis o preço da amizade. Ele gosta de nos ver transpirar. O calor não o afecta, antes pelo contrário. Parece um lagarto, os olhos de lagarto, o sangue frio. Gargalhadas.

Foi o que eu vi naquela noite, no México, que as iguanas se parecem com ele. Gargalhadas. E bebe mais do que eu, pelo menos aguenta-se melhor. Deve ser do sangue frio. O homem deve ser é uma espécie de mágico, um hipnotizador, porque eu não acredito que só pela amizade me apanhava nesta sierra. Aponta para o vale. Pelo menos o cônsul tem a sorte de passar o filme no bar, naquela esplanada à sombra.

Sim, sim, mas farta-se de sofrer e isso é o pior, vermo-nos encurralados na pele de um sofredor. Pelo menos eu tenho momentos divertidos e mesmo alguns em que se sente o verdadeiro calor humano. É preciso ter estrutura de sofredor para suportar o que ele suporta. Ou gostar de sofrer.

Meus amigos, porque é que a verdade é tão cruel? Ambos se voltaram para a olhar.

O protagonista de aventuras em África suspira. É a nossa amiga que nunca se queixa da vida, continua a descer aquele rio com o ar mais natural deste mundo.

A amiga sorriu, depois dirigiu a voz solene para o noctívago em noites mexicanas. E o teu anjo protector?

Não sou o único cruel nestes cenários, mas os piores por vezes são os melhores, cada um no seu papel, o meu anjo esfuma-se sempre, sempre quando amanhece... mas tenho o mar e uma companhia, é mais do que suficiente para um elemento da espécie humana.

Não sejas tão sarcástico, pode ser suficiente para a espécie humana como dizes, mas não é para uma personagem. Voltaram-se, era o homem das petições e dos elefantes. E a minha causa é esta, as nossas causas são sempre maiores do que nós, os nossos sonhos maiores do que nós...

Elefantes, que grande causa... O tom sarcástico pertencia ao protagonista, os olhos semicerrados.

O homem das grandes causas fixou-o. Está tudo interligado, o próprio cônsul entendeu perfeitamente, a mulher louríssima entendeu. Os elefantes são a última réstea de liberdade e dignidade da espécie humana. Não vou perder mais tempo a explicar tudo isso, passo a vida a fazê-lo. Assinem aqui e pronto.

 

 

 

 

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publicado às 13:04


2 comentários

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De euzinha a 06.08.2008 às 14:08

http://girlscolection.blogspot.com/
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 07.08.2008 às 17:20

Parabéns pelo Blog "Girls Colection"!

Pelo design e pelos temas, muitíssimo úteis.
Irei visitá-lo mais vezes, com muito prazer!
Ana

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